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3. Como a Justiça é percebida pelos cidadãos como “coisa para ricos” e as instituições-chave da democracia perderam credibilidade.
A Educação (de que já falei) e a Justiça, juntas, formam o esqueleto da democracia e viabilizam a economia de um país: a Educação, porque prepara os recursos humanos; a Justiça, porque permite o equilíbrio nas relações entre cidadãos, empresas, instituições.
Sem estes dois pilares a funcionar de forma saudável, perde-se a eficácia das competências necessárias (recursos humanos) e a confiança no relacionamento entre indivíduos, empresas, instituições.
A Justiça hoje é percebida pelo cidadão comum como “coisa para ricos”, em que ganha uma causa quem pode pagar a um bom advogado. A Justiça é-lhe inacessível. Logo, está entregue a si próprio. Completamente indefeso. O cidadão comum já percebeu isso ao ver como alguns processos estão a decorrer. Isto é gravíssimo, numa altura do campeonato em que algumas empresas e organizações (o fisco, as petrolíferas, a banca, etc.), se estão a tornar prepotentes, agressivas e até invasivas dos direitos dos cidadãos para lhes “sacar” o que andaram a perder em operações duvidosas e especulações financeiras. Logo, teremos em breve a “lei da selva” por aí. Mais perverso ainda quando é o mesmo cidadão, que não tem acesso à Justiça, o que paga os seus serviços e estragos. Pior é impossível!
Quem se arrisca a investir num país em que a Justiça não funciona, a não ser para proteger irregularidades? E isto tem um efeito dominó para a Segurança também. E vive-versa. Este é o país onde se atacam pessoas dentro de uma esquadra de polícia e dentro de um tribunal. Este país está é a transformar-se no “paraíso dos malfeitores”. (Lembram-se daqueles jogos infantis em que havia um lugar protegido, em que o perseguidor não nos podia tocar? Um “santuário”? Pois bem, estamos perto de ser o “santuário” dos malfeitores internacionais). Vai uma apostinha?
Estamos actualmente numa situação crítica, muito frágil mesmo. Não é só a Economia, a Educação, a Justiça, a Segurança, é ainda a progressivaperda de credibilidade de instituições-chave numa democracia moderna e num estado de direito saudável.
Total descrédito: Banco de Portugal e Autoridade da Concorrência;
Alguma credibilidade (mas com tendência negativa): Assembleia da República e Procuradoria Geral da República;
Credível (mas com poucos meios para responder a tantas solicitações): Provedor de Justiça.
Está tudo interligado, como veremos. Este cenário lembra-me cada vez mais o Estado Novo. Só nos falta a Pide e a Guerra Colonial. É certo que no Estado Novo havia aquele “respeitinho” e subserviência q.b. Não se dizia alto o que se pensava baixinho. Mas fora a algazarra geral, a histeria colectiva, esses tubos de escape, temos todos os ingredientes: aumento das desigualdades sociais; corporativismo; favorecimentos; encobrir grandes irregularidades e perseguir os pequenos fora-da-lei; a delação; a prepotência; a arbitrariedade; etc. etc.
Estas formas obsoletas, incultas e provincianas de organização social não podem ser inscritas na designação “democracia”, a não ser num sentido muito lato do termo. Onde não se verifica uma concorrência saudável de mercado; onde as novas gerações não estão a ser preparadas para os desafios do séc XXI; onde não existem condições para garantir o equilíbrio no relacionamento entre indivíduos, empresas, instituições; onde a segurança de vidas e bens está constantemente em perigo; digam-me se este “salve-se quem puder” se inscreve na fórmula “democracia”. Não me parece.
Bem, ainda falta a Saúde, a Defesa, a Cultura e os Negócios Estrangeiros, não é?
Da Saúde gostaria apenas de referir este recente “quase convite” ao cidadão que mora no interior do país (esquecido por este governo), ali na zona da raia, a ir tratar-se a Espanha.
Da Defesa, não tenho acompanhado os últimos episódios.
Quanto à Cultura, acho que desapareceu. Só deu sinais de vida para falar do acordo ortográfico.
E parece que o ministério dos Negócios Estrangeiros é o que está com melhor imagem junto do cidadão. Será porque é sobre negócios estrangeiros?
E mesmo que o meu olhar seja sombrio (talvez porque exercito a memória e cultivo a observação atenta a pormenores), e que o que aqui digo seja exagerado, ou até injusto, este é o olhar do cidadão comum, pelo menos do que eu tenho captado. O que quer dizer que há a necessidade urgente de restaurar qualquer coisa de fundamental: a confiança no estado, nas instituições-chave, nas organizações, nas empresas, etc. Por alguma razão essa confiança está por um fio...
Quanto à viabilidade do país, viro-me para as novas gerações. Políticos sem personality issues, como: necessidade de afirmação pessoal; necessidade de protagonismo; ambição individual desmedida; egocentrismo e imaturidade; baixo limiar de resistência à frustração; visão do poder como poder pessoal; fracas aptidões sociais como a capacidade de empatia e de negociação; fraco sentido de responsabilidade; ausência de cultura comunitária e de bem comum; ausência de valores sociais; etc. etc.
Assim, o contrário disto forma o político para o séc. XXI. Abarcar todas as qualidades referidas seria o ideal, e ainda falta aqui o carisma, o entusiasmo, a visão de um caminho, a capacidade de animar e mobilizar grupos de trabalho, as raras capacidades de comunicação. Lembrar também que estas capacidades são percebidas pelo cidadão porque confia no político (atribui-lhe credibilidade) e essa confiança constrói-se, não surge do nada nem de uma operação de cosmética ou de marketing político.
Dou-vos apenas dois exemplos de algumas destas qualidades num político, e escolho propositadamente dois políticos portugueses presentes na nossa história recente mas infelizmente ausentes antes do seu tempo vital: Sá Carneiro e o General sem medo. Assim não serei mal interpretada nem injusta com os actuais políticos. Mas posso referir um inglês, que se aproxima deste modelo de novo político para o séc. XXI: David Cameron.

 

 

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publicado às 11:35


4 comentários

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De Zé da Burra o Alentejano a 19.02.2009 às 16:27

A LEGALIDADE PREVALECE SOBRE A VERDADE. É assim pode provar-se que 1+1=2, mas as provas só valem se conseguidas por um agente na sequência de uma ordem de um juíz, mas mesmo assim de nada valem se se conseguir lançar a dúvida sobre a imparcialidade do juíz.
Por isso assistimos hoje a tudo e não podemos falar porque se o visado for um "TUBARÃO" quem se lixa é o "MEXILHÃO".

Nada vai mudar enquanto 80% dos portugueses não mudarem a orientação do seu voto, por isso há que votar mas nos pequenos: quanto mais disperso for o voto menos força têm os políticos e seus acólitos.

Zé da Burra o Alentejano
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 19.02.2009 às 17:35

Não sei se será possível mudar os sistema com a pulverização dos votos. É por isso que os cidadãos, enquanto eleitores, têm recorrido ao "voto útil".
Mas percebo (ou penso perceber) o que quer dizer. Que os partidos maisvotados e que fizeram governo já mostraram a sua "cultura política", claramente insatisfatória numa democracia.
Este será um dilema difícil de resolver neste ano eleitoral, sem dúvida.
Cumprimentos.
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De david leal a 26.04.2009 às 02:05

Bom post!!

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